Alice não saiu do País das Maravilhas, mas depois de velar o coelho que, por muito tempo, acreditou estar dormindo, percebeu, enfim, que o animal fedia. Então, calmamente, pegou qualquer dos objetos que ali se encontravam e começou a cavar na terra.
Nunca havia feito qualquer coisa dessa natureza e estava com medo. Enterrar cadáveres ou deixa-los apodrecer diante dos olhos, suportando-lhe o cheiro e o aspecto asqueroso? Não, merecia um funeral, mesmo sendo um coelho. Então, pacientemente, cavou. Demorou dias e dias. Cavar não era fácil. Ir fundo, não era fácil, contudo, o mais fundo que ia, Alice se via. Havia espelhos na terra e, quanto mais prosseguia, mas mudavam os espelhos e mostravam uma Alice diferente.
No momento de enterrar o animal, no entanto, sentiu pena, chorou, sofreu, queria vê-lo vivo e sorrindo, mas isso era impossível. Chega um momento em que as coisas já são irreversíveis. Assim, fechou os olhos, prendeu a respiração e o enterrou, no fim, já com certo prazer. Alegrou-se pelo que tinha feito e pelo que tinha visto. Sentia-se leve, feliz e sozinha. Sim, estava sozinha ali no centro da terra. Queria sair, precisava voltar para os que amava, mas a estranha voz ressurgiu e indagou seus desejos:
— Quer voltar? Por que não segue pelo País das Maravilhas?
— Não quero mais o mundo do coelho, quero o meu mundo.
— Já tem certeza disso? De que quer o seu mundo? De que sabe qual é o seu mundo?
— Não.
— Então, por que não espera mais um pouco? Vazio e escuridão fazem bem, às vezes.
— Estou esperando, estou esperando, mas depois, na hora certa, vou ter que me esforçar e escalar de volta.
— E vale à pena escalar de volta?
Alice calou-se. Não tinha respostas a não ser o seu medo. E se fosse tarde demais? E se todos estivessem mortos? E se Dinah realmente não a quisesse mais? E se o coelho tivesse razão sobre gatos?
— Quer cair de volta no buraco, Alice? Se subir, pode se arrepender e vai acabar caindo de volta.
A jovem pensou uns segundos e indagou sussurrante:
— Um dia segui um coelho, mas ele morreu antes de me fazer sorrir. Ele me fez sofrer e não vale à pena sofrer por coelhos. O que vale a pena?
— Adormeça agora. Você está confusa. Durma, Alice.
Nunca havia feito qualquer coisa dessa natureza e estava com medo. Enterrar cadáveres ou deixa-los apodrecer diante dos olhos, suportando-lhe o cheiro e o aspecto asqueroso? Não, merecia um funeral, mesmo sendo um coelho. Então, pacientemente, cavou. Demorou dias e dias. Cavar não era fácil. Ir fundo, não era fácil, contudo, o mais fundo que ia, Alice se via. Havia espelhos na terra e, quanto mais prosseguia, mas mudavam os espelhos e mostravam uma Alice diferente.
No momento de enterrar o animal, no entanto, sentiu pena, chorou, sofreu, queria vê-lo vivo e sorrindo, mas isso era impossível. Chega um momento em que as coisas já são irreversíveis. Assim, fechou os olhos, prendeu a respiração e o enterrou, no fim, já com certo prazer. Alegrou-se pelo que tinha feito e pelo que tinha visto. Sentia-se leve, feliz e sozinha. Sim, estava sozinha ali no centro da terra. Queria sair, precisava voltar para os que amava, mas a estranha voz ressurgiu e indagou seus desejos:
— Quer voltar? Por que não segue pelo País das Maravilhas?
— Não quero mais o mundo do coelho, quero o meu mundo.
— Já tem certeza disso? De que quer o seu mundo? De que sabe qual é o seu mundo?
— Não.
— Então, por que não espera mais um pouco? Vazio e escuridão fazem bem, às vezes.
— Estou esperando, estou esperando, mas depois, na hora certa, vou ter que me esforçar e escalar de volta.
— E vale à pena escalar de volta?
Alice calou-se. Não tinha respostas a não ser o seu medo. E se fosse tarde demais? E se todos estivessem mortos? E se Dinah realmente não a quisesse mais? E se o coelho tivesse razão sobre gatos?
— Quer cair de volta no buraco, Alice? Se subir, pode se arrepender e vai acabar caindo de volta.
A jovem pensou uns segundos e indagou sussurrante:
— Um dia segui um coelho, mas ele morreu antes de me fazer sorrir. Ele me fez sofrer e não vale à pena sofrer por coelhos. O que vale a pena?
— Adormeça agora. Você está confusa. Durma, Alice.


