31.3.06

Capítulo IV: Entre Ficar, Seguir e Voltar

Alice não saiu do País das Maravilhas, mas depois de velar o coelho que, por muito tempo, acreditou estar dormindo, percebeu, enfim, que o animal fedia. Então, calmamente, pegou qualquer dos objetos que ali se encontravam e começou a cavar na terra.

Nunca havia feito qualquer coisa dessa natureza e estava com medo. Enterrar cadáveres ou deixa-los apodrecer diante dos olhos, suportando-lhe o cheiro e o aspecto asqueroso? Não, merecia um funeral, mesmo sendo um coelho. Então, pacientemente, cavou. Demorou dias e dias. Cavar não era fácil. Ir fundo, não era fácil, contudo, o mais fundo que ia, Alice se via. Havia espelhos na terra e, quanto mais prosseguia, mas mudavam os espelhos e mostravam uma Alice diferente.

No momento de enterrar o animal, no entanto, sentiu pena, chorou, sofreu, queria vê-lo vivo e sorrindo, mas isso era impossível. Chega um momento em que as coisas já são irreversíveis. Assim, fechou os olhos, prendeu a respiração e o enterrou, no fim, já com certo prazer. Alegrou-se pelo que tinha feito e pelo que tinha visto. Sentia-se leve, feliz e sozinha. Sim, estava sozinha ali no centro da terra. Queria sair, precisava voltar para os que amava, mas a estranha voz ressurgiu e indagou seus desejos:

— Quer voltar? Por que não segue pelo País das Maravilhas?

— Não quero mais o mundo do coelho, quero o meu mundo.

— Já tem certeza disso? De que quer o seu mundo? De que sabe qual é o seu mundo?

— Não.

— Então, por que não espera mais um pouco? Vazio e escuridão fazem bem, às vezes.

— Estou esperando, estou esperando, mas depois, na hora certa, vou ter que me esforçar e escalar de volta.

— E vale à pena escalar de volta?

Alice calou-se. Não tinha respostas a não ser o seu medo. E se fosse tarde demais? E se todos estivessem mortos? E se Dinah realmente não a quisesse mais? E se o coelho tivesse razão sobre gatos?

— Quer cair de volta no buraco, Alice? Se subir, pode se arrepender e vai acabar caindo de volta.

A jovem pensou uns segundos e indagou sussurrante:

— Um dia segui um coelho, mas ele morreu antes de me fazer sorrir. Ele me fez sofrer e não vale à pena sofrer por coelhos. O que vale a pena?

— Adormeça agora. Você está confusa. Durma, Alice.

19.3.06

Capítulo III: Onde Está o Coelho?

Depois de dias adormecida, a estranha voz assoprou nos olhos de Alice:

— Alice, acorde, mataram o coelho branco, você não percebeu? Ele está morto e você está pisando em seu cadáver. Por isso você não o encontra. Escale o buraco e volte para o lugar de onde você veio. Não disse que vai ser indolor, mas vai ser gratificante cada arranhão.

— Ele está morto? Não! Ele está dormindo. Deixa-me ficar mais um pouco e ver o que posso fazer. Deixa-me ver se ele acorda e se me leva para algum lugar maravilhoso.

— Você já está nesse lugar e ele lhe parece maravilhoso? Sim, ele está morto. Mas continue se quiser. Perca o que chama de tempo. O mundo ainda gira, mesmo que mais devagar no centro da terra.

— Vou ficar. Ele vai acordar!

— É você quem precisa acordar, Alice. Mas boa sorte.

11.3.06

Capítulo II: O que Aconteceu a Alice Depois de Atravessar a Porta

E diminuiu de estatura, como um rato, pois a porta era minúscula. O coelho atravessou a passagem e Alice, antes de seguir o mesmo rumo, observou uma placa afixada na parede: “O Caminho de Ida e o de Volta são o Mesmo Caminho, mas nem Sempre se Conhece ao Certo o Caminho de Ida, assim, Jamais é Possível Voltar”. Leu apreensiva, mas continuou porque já era tarde. Além da porta, existia uma escura floresta e, além da floresta, um bonito jardim.

Ao chegar naquela, não avistou o coelho. Este havia se escondido entre as árvores. Do animal, só escutava as risadas e os comentários ferinos:

— Alice está no meu mundo. Enfim, Alice está no meu mundo. Não é tão ruim, Alice. Não quanto você desprezava. Escuridão e solidão. Escuridão e solidão. Não se preocupe, sempre estarei aqui.

— Não era o que eu esperava.

— Mas consegue voltar?

A porta havia desaparecido. O coelho havia desaparecido. Estava só e triste:

— Coelho, volte, não me deixe só. Preciso de você!

— Agora você precisa do pobre coelho.

— Onde está? Não me magoe!

— Então, Alice quer o coelho? Que engraçado!

— Não vejo nada de engraçado!

A jovem passou a andar pela floresta, mas o coelho se escondia mais e mais entre as folhagens secas.

— Não me deixe só!

— Então, me ache e faremos um trato. Fique enquanto eu quiser, e eu te apresento o País das Maravilhas!

— O que é o País das Maravilhas?

— Por que a pressa? Me ache, lute por mim...

E Alice saiu à procura do coelho. Foram horas incansáveis, mas o coelho era perverso e apenas gargalhava. A jovem seguia o som da risada, e essa nunca parava fixa num único ponto. Assim, quando não mais suportava seu próprio peso, tombou no chão no exato instante que o coelho silenciou-se.

— Onde está? Coelho, Coelho, fale comigo só mais uma vez!

Nada. Nada. Só o silêncio e a escuridão.

10.3.06

Capítulo I: O Coelho Branco, a Gata Dinah e Alice

Era uma tarde quase perfeita, com poucas nuvens. Mas Alice, entediada, separou-se de sua gata Dinah e seguiu até o jardim. Talvez estivesse também entediada de sua gata e de sua casa, por isso queria uns instantes de solidão.

Sentada em um banco de pedra, observava cuidadosamente as flores e uma de suas antigas bonecas destruídas pelos acessos infantis da gata. Em um segundo, enquanto reclamava e entristecia-se com seu brinquedo em pedaços, viu passar adiante um coelho branco. Coelhos brancos existiam muitos naquela região, mas ainda assim, preferia os gatos. No entanto, diferente de todos os coelhos, aquele usava óculos, relógio e falava ansioso.

— Siga-me, logo! Não vou repetir! Vai se arrepender se continuar parada! Siga-me! Siga-me!

Nesse instante, escutou o miado de Dinah, mas há muito, a gata não lhe falava como antes, ou, como todos os gatos, nunca falara. Resolveu, então, seguir o coelho falante e, a gata, da mesma forma, a ignorou.

— Siga-me, siga-me!

— Espere, senhor Coelho. Sei que não deveria acreditar num coelho que fala, mas como o senhor é um coelho que usa relógio e óculos, espere seu Coelho, vou segui-lo.

— Siga-me, siga-me!

Rapidamente, o coelho entrou numa toca e Alice, sem medo, acompanhou o trajeto. Em segundos, a jovem despencou. E despencou, despencou...

— Talvez esse buraco me leve para muito além do meu jardim...

— E para quê ir além do jardim? — falou uma voz vinda de todos os lados e de lado algum.

— Quem me fala?

— Não importa quem fala, mas o quê é falado...

— Mas “quem fala” é a minha pergunta!

— Então “eu” é a minha resposta.

— Por favor, estou caindo, seja bonzinho...

— O que sabe sobre o destino não é mais do que ele sabe sobre você.

— Não sei nada sobre destino...

— Para quê ir além do jardim, Alice?

— E por que não ir? O Coelho me chamou e Dinah não me queria...

— Dinah é uma gata, Alice.

Então, chegou ao chão. Tudo se iluminou e a voz desapareceu. Ao longe, o coelho a encarava sério e apontava rumo a uma porta.

— O que é aquela porta, Coelho?

— Uma porta que vai guia-la para longe de todos os gatos.

— Inclusive Dinah?

— Longe de todos os gatos, eu disse!

— E qual o problema dos gatos?

— Gatos não amam.

— E coelhos amam?

— Não, também não amam. Mas, coelhos falam?

Alice calou-se e o coelho prosseguiu.

— Gatos escolhem você, não o contrário. E eles ficam por perto enquanto o “por perto” lhe for útil ou novidade. E talvez, Alice, você nem seja uma escolha.

Fraca, sentou-se no chão e começou a chorar.

— Não chore, pequena Alice. Você ainda pode passar pela porta.

— Mas a porta não me serve. Ela não é para mim, vai me machucar. Prefiro voltar. Preciso conquistar Dinah.

— Não se conquistam os gatos. Não seja teimosa. Não há mal algum em passar pela porta. Ela não lhe serve, mas posso ajusta-la.

— A porta?

— Não, você! Não me peça muito, Alice. Esse é o meu mundo, eu dito as regras.

O coelho, então, pegou uma garrafa e entregou para a menina que olhou o frasco algumas vezes e desistiu.

— Dinah!

— Como você é boba. Enquanto vive suas dúvidas, o tempo passou e Dinah viveu. Olhe nessa parede, vê Dinah?

E ali, como um espectro, Dinah lhe surgia alegre brincando em outros jardins. Com outro alguém.

— Dinah não está mais sozinha... Dinah me esqueceu.

— Não imagina o quanto... Já tem outra dona.

E sem pensar mais, bebeu todo o líquido que o Coelho lhe oferecia.