30.4.06

Capítulo VIII: Do Porque Alguns Finalmente não Precisam Existir

Não dava para ver o fim da estrada, mas em alguns pontos, eram bem visíveis outros caminhos pelo meio da floresta escura, ao lado. Logo a floresta escura? O caminho claro, reto, óbvio e igual da estrada sem fim parecia mais seguro.

— Às vezes, é preciso desviar.

Mais uma vez, o gato, de algum lugar, falando para Alice.

— Maldito gato. O que quer?

— Às vezes, você precisa desviar. Melhor. Às vezes, precisa sair do caminho, antes que atrapalhe o trânsito ou, o que eu prefiro, ser atropelada por ele.

— Ora, não há trânsito aqui!

— Agora não. Talvez mais tarde. Ah! É uma estrada, coisas podem passar por uma estrada, quando desejarem. Carros, carroças, cavalos ou não. Você e eu somos o trânsito agora, se quer saber.

— E?

— E que você está andando sem saber para onde vai, se ainda não percebeu.

— Não será muito diferente em outras estradas por ai.

— Por isso mesmo deveria desviar. Se não sabe pra onde essa estrada vai leva-la, se não sabe pra onde as outras estradas vão leva-la, deveria ficar variando-as quando lhe desse vontade, até encontrar uma estrada mais emocionante ou descobrir pra onde, afinal, você quer ir. Você pelo menos já sabe onde está?

— Em lugar nenhum?

— Começou muito bem, porque no fundo é onde todos estão.

Alice parou diante uma estrada que se perdia pelo meio das árvores. Encarou aquela nova aventura por alguns segundos e a doce praticidade da estrada clara.

— Hum, e você? Para onde vai? Algum objetivo em mente?

— Sim. Sempre tenho objetivos em mente.

— Qual seu objetivo, então?

— Mudar de estradas conforme minha vontade.

— Oras isso não é um objetivo. Mudar de estradas. Que finalidade tem isso?

— Minha finalidade é mudar de estradas. Esta é a minha finalidade.

— Como pode ser sua finalidade a ponte que o levaria a alguma finalidade? Como o meio pode ser o fim? O fim será seu meio? Ou o fim será seu inicio e o seu inicio o fim?

— Meu fim é mudar de estrada. Meu meio é a própria estrada. O início sou eu (o que poderia chamar de fim também)

— Se seu fim é mudar de estrada, você não sabe onde quer chegar.

— Na próxima estrada quando me der vontade, já disse.

— E o que você ganha com isso? — nervosa com as confusões que o gato lhe impunha.

— Minha vontade satisfeita.

— E quando a estrada acabar?

— Procuro outra estrada se eu quiser. Ou fico no lugar, se eu gostar.

— Então você não quer chegar a lugar algum?

— Já estou em algum lugar: aqui. Meu objetivo é muda-lo, vez ou outra. Divirto-me na estrada sem necessariamente esperar muito dela.

— Oh, não consigo ver assim.

— Por isso você é assim. É, você é bem assim, garota!

— Não sou assim, só quero chegar a algum lugar.

— Que lugar?

— Não sei ainda.

— Então! Mude de estradas até descobrir e vá se divertindo por elas. Talvez descubra que deseja mais mudar de estradas do que chegar a algum finalmente. E estou quase certo que você é como eu.

— Isso não me convence.

— As estradas?

— Sim, talvez, as estradas. As estradas sem nenhum objetivo prático para elas me deixam ansiosa. É como perder tempo.

— Perder tempo é o que você está fazendo porque não percebe que já está mudando de estradas toda vez que se sente incomodada, com a diferença de que não está se divertindo muito com isso.

— Não, não estou.

— Problema seu.

20.4.06

Capítulo VII: A Criança que não Conhecia o Tempo

E seguir pela estrada, um pouco menos escura do que a floresta, não era tão desagradável. Uns minutos alí, porém, já se viu acompanhada por uma criança de uns cinco anos de idade. Um menino sério e que seguia sem notar a presença de Alice. Tanto que a menina precisou aproximar-se e cumprimenta-lo, ligeiramente preocupada em vê-lo sozinho naquele deserto e escuro lugar nenhum.

— O que faz aqui só? Está escuro e tarde demais pra uma criança do seu tamanho.

Sem se virar para Alice, o menino respondeu.

— Escuro está, mas quem disse que está tarde? Deve estar cedo bastante para que o sol nem tenha nascido, só isso. Ou quem sabe o sol não deseje nascer hoje?

— Mas por que não espera o sol nascer, então? Quando o dia começar...

— E onde o dia ainda não começou? Aliás, pra mim, ainda nem acabou.

— Oh! Então, se o dia não acabou, mas está escuro, isso quer dizer que um novo dia não iniciou e, assim, não está cedo para outro sol nascer, logo, está tarde no dia que ainda não acabou!

— Se você diz...

— Digo e volto a perguntar: o que faz aqui só? Está escuro e tarde demais para uma criança do seu tamanho!

— Ainda tenho o que fazer. Quando o dia começou, eu comecei o que tinha de fazer. O dia irá acabar quando tudo estiver terminado.

— Mas o tempo está passando...

— Que tempo?

— Oras, que tempo? Que tempo? Você complica demais para uma criança!

— Quem complica demais é você. E não sou uma criança, apenas não ocupei meus dias com afazeres que os fizessem passar mais rápido.

Alice ficou sem resposta, estática, enquanto o menino seguia e ela o observava à distância. Pensar que só tinha dez anos e, em quantos desses anos desejou que o tempo passasse em um cometa apenas para se livrar dos afazeres enfadonhos?

18.4.06

Capítulo VI: Os Clarões do Minuto ou porque Alice não Precisou Pensar

Estar sozinha lhe parecia uma idéia assustadora como todas as idéias que, infelizmente, não possuíam outra característica senão a de serem assustadoras naquele lugar. Estava escuro e isso, de certa forma, era confortável. Pelo menos não precisava decidir por qual caminho deveria seguir, não via qualquer um.

— Mas está enfadonho permanecer aqui.

E os clarões continuavam mudando de lugar e Alice contava quantos apareciam ao mesmo tempo.

— Um, dois, quatro, seis, nove.

Uma pausa. A completa escuridão e a menina falou consigo em voz baixa.

— Serão trinta clarões agora.

E foram exatos trinta clarões que iluminaram toda a floresta, deixando visível uma estrada que atraiu Alice sem que ela precisasse pensar.

11.4.06

Capítulo V: O Gato que não era Dinah e Alice

Logo que acordou, Alice procurou por uma porta que a levasse de volta para o seu mundo. Mas com pouca paciência e sem esperança, preferiu aventurar-se sozinha pela floresta escura. Não era completamente escura, existiam alguns clarões algumas vezes, mas esses instantes eram rápidos como se algo encobrisse a fonte de luz de minuto em minuto.

— Florestas escuras sempre me assustaram.

— E quando esteve em uma, antes?

— Quem fala?

Não era a estranha voz. Era uma outra mais aguda e sarcástica. Alice observou tudo ao seu redor, mas como pudera imaginar e como tudo, normalmente, estava ocorrendo, não viu ninguém.

— Nunca estive numa floresta escura antes.

— Então como sabe que é uma floresta e logo uma floresta escura?

— Já vi uma floresta e já vi o escuro.

— Vejo que gosta de matemática!

Alice não entendeu a explanação. Floresta, escuro e matemática. Mas nada comentou e deixou a voz continuar.

— Tudo é simples como a matemática.

— Não gosto de matemática!

— Então você deve complicar um pouco as coisas. Permita-me apresentar.

E surgiu num clarão do minuto, um gato.

— Um gato! — assustou-se a menina.

— Um gato? O que é um gato?

— Você é um gato, como Dinah.

— Dinah? Dinah? Acho que nunca fomos apresentados. Bem, o que é um gato? Isso é ruim para mim?

— Não sei se é ruim para um gato ser um gato. Nunca os condenei por isso, mas hoje encontrei um coelho que me falou muito mal dos gatos.

— Então gatos são ruins? Eu sou ruim?

— Não conheço o senhor.

— Então não fale de mim e deixe comigo. Chamo-me gato.

Alice sobressaltou-se e comentou raivosa:

— Você é um gato!

— Não! Chamo-me Gato assim como poderia me chamar Paralelepípedo, sem que isso me fizesse um.

— Mas o senhor é um gato que se chama Gato!

— Coincidências. Coincidências. Você se prende a detalhes inúteis. Como se chama?

— Alice.

— E para onde vai?

— Não sei. Para casa talvez. Ou para o jardim.

— Muito objetiva — ironizou — Lembre-me de ficar longe de você!

— Gato mal-educado!

— Não pode chegar sem antes sair e para quê sair se não sabe onde quer chegar? Meio óbvio, não? Mas não estou aqui para ser autêntico ou você já viu dois mais dois ser diferente de quatro? Embora eu tenha certeza que sim.

— Você é um chato!

— E você é muito nova para ficar reclamando da vida. Mas não posso esperar tanta maturidade da sua parte. Mal a conheço...

— Então por que continuamos essa conversa?

— E temos outra saída? Estamos os dois aqui, sozinhos, vamos falar.

— Eu estar sozinha e aqui não me obriga a falar com você sozinho e também aqui.

— Então não fale. Ninguém a obriga.

E o gato seguiu pela escuridão enquanto Alice permaneceu sozinha.