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Capítulo X: A História do Velho, dos Outros 999 e da Mulher que Fugiu

— Eu não acredito que uma mulher possa ter tido mil filhos de uma única vez! — adiantou-se antes que o homem iniciasse qualquer argumento.

— Ótimo, assim tudo fica menos complicado.

— Tudo “menos complicado” o quê?

— Contar minha história. Contar minha história sempre fica mais fácil quando o ouvinte já afirma que não vai acreditar nela.

— Hum! Não deveria ser o contrário?

— E por quê? O problema em contar minha história é meu, mas não possuo nenhuma obrigação em desejar que acreditem nela. Odeio ter obrigação de possuir qualquer desejo.

— O quê?!

— E além do mais, que graça tem aqueles que nada questionam? Porque existem quatro espécies de pessoas no mundo: as que acreditam em tudo, as que duvidam de tudo, as que questionam tudo e as... enfim... o que eu estava falando?

— Que acha ótimo eu não acreditar em qualquer vírgula do que você ainda não me contou!

— Perfeito! Exatamente! Perceba que não tenho culpa por você não ter qualquer graça. Vou ser bem sintético.

— Seja, então, antes que me confunda mais com todos esses conceitos bizarros. Já me basta o gato sem nome...

— Um dia, uma mulher grávida de mil e uma crianças deu a luz a exatas mil e uma crianças, mas uma morreu logo após o parto. Complicações.

— Como uma mulher pôde dar a luz a mil bebês?!

— Mil e um. Mil e um... Do mesmo jeito que algumas dão à luz a um, oras. Criança idiota.

— Idiota? E essa sua história o que é?

— Escuta alguém me obrigando a falar sobre mim? Alguém ai me obriga a falar sobre mim?! — grita o homem para o nada.

— Hum! Tudo bem, tudo bem. Suponhamos que seja verdade: por que a mulher fugiu? Ficou com medo de criar mil crianças de uma única vez?

— Pobre coitada, o grande sábio disse-nos que ela enlouqueceu depois que soube da morte de uma das crianças. Fugiu pela floresta escura e sumiu.

Alice acomodou-se na quarta espécie de pessoas e foi embora.

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Capítulo IX: Quando Alice Encontrou uma Cidade de Mil

Alice estava mudando de estradas sem se divertir. Queria mesmo era chegar a algum lugar, qualquer lugar e, se gostasse, chamaria de fim de ponto. Caso contrário, de passagem. Era um pensamento simples, mas o gato gostava de confundi-la como gostam de confundir os desocupados com imaginação ociosa.

Andou algumas centenas de metros e avistou um vilarejo. Vilarejos parecem um bom lugar para “chegar”. Aproximou-se de um velho sentado a frente de um monumento estranho, pontiagudo e sem-sentido. Ele cortava as unhas dos pés com uma faca, parecia bastante concentrado:

— Senhor, onde estou?

— Em frente ao sol.

Alice afastou-se envergonhada por ter atrapalhado o homem:

— Desculpe-me.

— Evite a esquerda do monumento nesse horário, é tudo que preciso.

— Sim, senhor.

— Muita gentileza.

— Minha mãe ensinou assim. Levava beliscões quando desobedecia ou era mal-educada.

— Mãe!? Que é uma mãe?

Aquela parecia uma pergunta estranha. Todos sabem o que são mães. Mesmo as pessoas que não tiveram a chance de conhecer a sua. Todos, de uma forma ou outra, acabam descobrindo o que significa uma mãe.

— Senhor, não sabe o que é uma mãe?

— Onde está escrito que eu deveria?

Como explicar se nem sabia direito como tudo começava? Sabia, mas tinha vergonha. Vergonha porque a mãe corava com as perguntas de Alice sobre o tema. Deveria haver uma explicação bem simplória.

— Sua mãe seria aquela mulher que cuidou de você desde quando você era um bebê cagão. Então ela o levou para escola, fez sua comida e, às vezes, o beliscava. Mas isso não é uma verdade daquelas verdades bem grandes. Algumas mães preferem o diálogo, mas não sei bem como funciona.

— Não lembro de ter conhecido tal mulher.

— Algumas pessoas não conhecem mesmo, mas com certeza alguém nesse vilarejo deve ter uma mãe.

— Não. Não lembro de ter conhecido tal mulher, porque aqui não existem mulheres. A última fugiu quando eu ainda era um bebê. Isso o que me disseram. Todos na cidade eram bebês, menos o grande sábio.

— Grande sábio?

— Sim! O homem, um velho homem que mora na montanha roxa, ele quem cuidou de todos nós desde quando éramos bebês cagões.

— Nossa! E quantas pessoas moram aqui?

— Mil! Mil homens com a mesma idade e a mesma cara. Você conversar comigo é conversar com a cidade inteira. Não é assim de onde você vem?

Alice assustou-se, mas desconfiava o porquê da mulher ter fugido. De qualquer jeito, era, para ela, obrigatório escutar a história do velho, daquela hora em diante.